Fiquei a pensar na razão pela qual o povo de Deus é referido como "rebanho" e descobri um significado oculto e de grande relvância sociológica: o rebanho segue um pastor, que é ajudado pelos seus agentes caninos, assim como o povo, segundo a Bíblia, deve seguir o seu Criador, auxiliado por toda uma panóplia de agentes controladores, que são, neste caso, os oficiais de Deus... os padres, bispos, etc.
Até aqui nada de novo, suponho mas, repare-se noutro aspecto da questão: o rebanho não tem mente própria (enquanto entidade colectiva) e a mente individual de cada um dos elementos é, de si só, bastante limitada, servindo apenas para sobreviver. Podia-se ter referido uma manada de cavalos... Mas a manada de cavalos é liderada por um cavalo. E quem lidera o rebanho? Uma ovelha??
Ou seja, cada ovelha é responsável pela sua alimentação e descanso e, também, pela sua própria sobrevivência, face ao perigo exterior. Se aparece um lobo, cada ovelha foge pela sua vida, ainda que tenha que pisar uma mais fraca. Mas, 99,9% das vezes, o rebanho é liderado por elementos de espécies diferentes. Ou seja, resumindo, o rebanho é liderado por um ser superior à ovelha (mais inteligente) mas, no caso de se suceder uma situação anormal, as ovelhas dispersam, sem Norte, cada uma correndo por si. É o caos... A rotina é perdida, o rebanho está condenado...
Outro aspecto importante é o da "ovelha tresmalhada". A dita "ovelha tresmalhada" não pode contar com o apoio das restantes, pois estas, apesar de viverem em conjunto, apenas vivem assim "porque sim", não tendo consciência da falta de uma das suas parceiras, pois nem sequer têm uma consciência concreta da sua existência (uma vez que nem num espelho reconheceriam a sua figura, como o faria um macaco ou um golfinho).
Ou seja, a "ovelha tresmalhada" está, efectivamente, só, abandonada pelas restantes. Não terá possibilidade de se reaproximar, estando exposta a uma panóplia de perigos de todo o tipo.
Os agentes de controle, os cães pastores, ajudam a manter o grupo unido, não hesitando em morder a ovelha mais rebelde, por forma a amansá-la.
Ora que estranha analogia à verdade cruel do mundo! Os homens, tal como ovelhas, são impiedosos com os seus semelhantes. São completamente esquecidos deles. Não se entreajudam. Apenas permanecem unidos porque não conhecem outro modo de vida, tal como as ovelhas. São altamente controlados pelas forças da ordem (que apenas mudam o seu aspecto exterior, mas que continuam com os mesmos interesses...).
Resta saber se há um pastor que nos guie ou se o rebanho está apenas a ser controlado pelos cães. Cada qual, segundo a sua crença, imagine o que quiser. Na minha imagem, o pastor adormeceu e ressona, enquanto cães e lobos se banqueteiam com as vidas das ignóbeis criaturas que somos nós.
Sim, esta imagem do rebanho serve para muita coisas mas, sobretudo, a meu ver, para retratar uma das maiores verdades do mundo: a raça humana é estúpida e cruel para consigo própria, tal como um rebanho, que se maneja como se quer, para onde se quer. E nós seguimos, apenas "porque sim"... Ou porque cremos que algo nos leva na direcção certa, assim como a corrente de um rio leva ao mar... porque não há outro caminho.
Mas... e se houver? Para onde nos estão a levar, então? Qual é o destino final de cada elemento do rebanho...? Não é o prato?...
E quem é que quer ser comido? Aposto que, se as ovelhas soubessem (se elas tivessem capacidade para compreender) não gostariam nada que isso lhes acontecesse.
Não se passará o mesmo connosco? Até que ponto somos de vistas curtas? Até que ponto podemos dizer que conhecemos com majestade a realidade das coisas?
Fica o repto...